Sonorizando imagens

Capa CD Orquestra OCAM 002 Sonorizando imagensSonsSobreSons – Criações Musicais Sobre Ideias Visuais (distribuição Tratore) é o CD lançado pela OCAM, Orquestra de Câmera da ECA/USP, sob regência de Gil Jardim (ele que é também o produtor do álbum e regente titular da orquestra), Filipe Fonseca e Enrico Ruggieri. Nos seus 25 anos de atividades, a OCAM traz a público obras de cinco compositores ligados à orquestra.

Alexandre Lunsqui compôs “Fibers, Yarn and Wire”, música inspirada em imagens de teares e mosaicos multicoloridos; e “Carretéis II”, composição motivada por uma série de telas de Iberê Carmargo.

Valéria Bonafé compôs “A Menina Que Virou Chuva”, réquiem para a sobrinha que morreu logo após nascer.

Paulina Luciuk compôs “Afterimage – Homage to Tomie Ohtake”. Segundo ela, “Afterimage é um tipo de ilusão de óptica na qual uma imagem continua a aparecer brevemente mesmo após a exposição à imagem real ter terminado” (…).

Yugo Sano Mani criou “A Escuridão, o Corpo Vermelho e o Fascínio”, “(…) processo criativo mais como um atravessamento afetivo do que como uma leitura literal da pintura”.

Wellington Gonçalves criou a “Dinâmica dos Fluidos”, música inspirada numa “abstração imagética de um acrílico sobre tela, de Tomie Othake”.

Confesso que estranhei o que ouvia. Aquilo não era pra mim. Não estou familiarizado com a música contemporânea… Seriam eles criadores de um tempo instrumental, ao qual nunca chegarei?

Ora, eu não sou um musicófobo. Ao contrário, sempre me vi aberto a experimentações musicais. Aos poucos afrontei o medo. Foi quando ouvi, vindo de não sei onde: “Não busque entender o que ouve. Assim o som ‘estranho’ o seduzirá. E seduzido tu não mais o estranharias, posto que a música contemporânea estará em tua cabeça”.

E a cada faixa eu “via” e “ouvia” as imagens sonorizadas, brotadas da alma inquieta dos autores da OCAM.

Mas hoje eu me aterei a “A Menina Que Virou Chuva”, de Valéria Bonafé. Dentre os 81 instrumentistas – uma orquestra de responsa –, ela selecionou oito primeiros violinos, sete segundos violinos, cinco violas, quatro violoncelos, três contrabaixos, duas flautas, dois oboés, dois clarinetes, dois fagotes, quatro trompas, um trompete, três trombones e um percussionista.

Sob a regência de Gil Jardim, a emoção de Valéria revela-se a cada compasso, expondo as entranhas que se contorcem em sagração a Heloísa Bonafé de Andrade, a menina que virou chuva, sua sobrinha.

Um nó aperta a garganta. Nas lonjuras do inconsciente, o delírio da dor se sobrepõe à fortaleza do ser humano. De tão apertado o nó, a autora resiste até voar em sons imaginários – puro amor.

E a dor da saudade vira música de olhos e ouvidos. Reexperimentando, reescrevendo o vazio, musicando a verdade, ainda que com a alma dilacerada, Valéria Bonafé reafirma fé na vida.

Para jamais esquecer Heloisa, Valéria teceu harmonias. Entrelaçando-as, criou sons imagéticos para um réquiem à criança que veio ao mundo e daqui se foi bruscamente – brutalmente triste, e belo.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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