Duas estórias de Clarice

cissa 12 Duas estórias de Clarice(Para a Clarice, que completa 12 anos neste 25 de agosto)

Um vulto na penumbra
Clarice assistiu um filme impróprio no cinema.
Ela tem 11 anos e a película estava estava regulada para pessoas acima de 13. Entrou com a irmã mais velhas e as primas.
O filme tinha cenas violentas, o que deve tê-la deixado bastante impressionada.
Duas da manhã, durmo pesadamente e sinto uma mão me tocar o rosto.
Abro os olhos e vejo aquela figura conhecida dissolvida na penumbra do quarto.
– Pai, estou tendo um sonho ruim.

Chego-me para o canto, puxo o edredon e ofereço o canto.
– Deita aqui, que papai te protege, digo flexionando o bíceps deficitário de músculos.

Ela ri, deita-se ao meu lado, abraça-me e dorme imediatamente.
Passo a noite em claro.
Fico ali, guardando o sono de Clarice, de olho na janela, de olho em Liam Nesson.

BIOGRAFIA

Estou terminando de ler a biografia do músico paraibano Zé Ramalho. Clarice, a caçula, entra no quarto e se deita ao meu lado:
– Pai, que livro é este?
Respondo, sem tirar o olho do livro.
– É bom?
Aceno afirmativamente com a cabeça.
Ela olha na capa e vê uma foto do compositor em tronco nu, braços abertos
– Livro de terror, né?
Sorrio.
Zé Ramalho não é lá dos mais belos.
E respondo tratar-se de uma obra biográfica.
Clarice coça a cabeça, olha para mim e pergunta:
– O senhor não acha que já passou da hora de escreverem a minha biografia?

Concordei, claro.
Já passou da hora.

Adormeceu aqui, a cabeça jogada em meu ombro, a mãozinha direita segurando o livro.

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