Bons ventos nos levem

Começamos um novo ciclo e encontro-me incrivelmente otimista. Você não deve estar lendo o seu próprio jornal, Roberto Lima – é provável que alguém diga. Tenho lido, sim, responderei com firmeza. E tenho lido tantos quantos me colocarem à frente dos olhos. Mais do que uma obrigação, a leitura diária dos noticiários é-me prazerosa e necessária no desempenho de minhas funções.

O telefone do jornal voltou a tocar com novos anunciantes e potenciais novos clientes, todos interessados em divulgar seus produtos entre os brasileiros. Recebi essa manhã um relatório animador.

Como um dente-de-leão que voa numa manhã luminosa de primavera, essa onda de otimismo tem feito seus corrupios, contagiado pessoas. Eu a vejo e sinto, como uma brisa benfazeja necessária e boa.

Será o efeito Obama? Pode ser.

Ainda recordo-me de fevereiro do ano passado, de férias em Fortaleza com quatro grandes amigos, e Norman Seabrook, um deles, tentando a todo custo me convencer a apoiar a candidatura de Barack Obama.

Norman é presidente do sindicado dos guardas de presídio de Nova York e amigo pessoal do novo presidente. Fiz ouvidos de mercador.

Leal a Hillary Clinton e ao partido democrata em New Jersey, não aceitei sequer discutir a questão. Sou assim.

Não importava se estávamos pegando um bronzeado na praia do Futuro, ou percorrendo de jipe as areias brancas das dunas, o assunto era recorrente.

E Norman dispunha de argumentos pesadíssimos.

Quando é que você vai se render ao óbvio?

Você sabia que ele graduou com honras nas universidades de Columbia e Harvard?

Roberto, pense bem: você será o primeiro jornalista de imprensa étnica a entrevistar o presidente.

E ria, pedindo outro peixe frito à moça da barraca da praia.

Imperturbável, continuei na minha cervejota, o vento terral soprando os cabelos, a cabeça literalmente de férias, o coração ameaçando tocar um frevo e os pensamentos mais diáfanos tomando conta de mim.

Política não estava, definitivamente, no meu menu.

Quando Obama conseguiu a nomeação do partido, derrotando a minha candidata, passei a apoiá-lo imediatamente. Norman teve a decência de não me ligar, perguntando se eu havia trocado de lado por mera conveniência. Não era esse o caso.

Há duas semanas, durante um jantar com empresários em Nova York, Norman contava da viagem ao Brasil e da frustrada tentativa de conseguir meu apoio para Obama.

Sorri. E assumi.

Sim, votei em Obama -, atalhei. E participei de forma ativa de sua campanha.

Eu, que vivo neste país há mais de duas décadas, testemunhei um dos mais belos momentos da história recente. Um candidato negro, filho de um imigrante, sendo eleito pela primeiríssima vez, o dirigente maior desta nação. E tudo com uma paixão jamais vista por aqui.

Encantou-me o envolvimento do eleitorado e a participação dos jovens.

Essa juventude acomodada, acostumada a receber de bandeja as benesses que um pai rico dá a um filho, percebeu a tempo que precisava correr atrás. Foi magnífico.

Na sexta-feira passada vi uma humorista falando com propriedade de, como uma coisa ruim, pode fazer com que surja algo de bom. Afinal, não fosse por George Bush, não teria surgido essa esperança coletiva em dias melhores, chamada Barack Obama.

É a mais pura verdade.

Sei de casos comuns, histórias cotidianas em que grandes complôs de maldade acabaram fortificando sentimentos bons. A maldade, quando vencida, fortifica, solidifica, imortaliza o que é bom.

Esperamos que isto tenha acontecido na América.

Agora, é arregaçar as mangas e colocar as mãos na massa. Não teremos tempo para uma lua de mel com Obama.

Que a grande decepção destes oito anos em que o povo americano saiu pelo mundo se metendo em guerras, esquecendo-se que dentro de casa uma tremenda desorganização se agigantava, se transforme em algo maior.

A hora é de botar as coisas no lugar, reconstruir esse sentimento de grandeza que faz deste país a maior potência do Planeta.

Hora de transformar idéias e sonhos, em doce realidade.

Bem vindo seja, Barack Obama!

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