A magia de certas canções

Ana Carolina diz, numa música recente, que a canção tocou na hora errada. Deve ter doído quando ela escreveu isto. Mas não deve ter doído tanto, quanto, quando, tocou a canção que a levou a escrever isto. Cazuza, grande poeta de sua geração, preferiu dizer que após uma ruptura, “a nossa música nunca mais tocou”. Como se quisesse dizer, dizendo, que enquanto estava tudo bem, a música tocava no rádio do carro, no escuro do quarto, no alto-falante do supermercado e do elevador. E que depois do fim da relação havia se diluído, dissipado, virado pó, como o amor das pessoas envolvidas naquela relação.
São geniais os nossos poetas da canção e eles foram, de certa forma, responsáveis pelo desvio de rota que culminou fazendo de mim um escrevinhador de coisas. Na adolescência, tornei-me ávido leitor de encartes de discos. Sabia bastante do que escreviam nossos letristas. Era apaixonado pelas colchas de retalhos de Belchior, o romantismo de Dolores Duran e as genialidades de Chico Buarque.
Chico tinha uma facilidade enorme de entender e revelar a alma feminina. Versátil, era também uma voz da resistência que lutou contra a ditadura militar municiado apenas de versos, disparando verbos contra os opressores do povo do Brasil. Fez um rombo enorme sem detonar um único coquetel molotov, driblando a censura com jogadas de craque e um pseudônimo brasileiríssimo: Julinho de Adelaide.
Belchior é de uma geração posterior, desceu do Ceará ao Sul Maravilha como muitos de seus conterrâneos. Seu pau-de-arara imaginável parou na porta de Elis Regina, e ela o apresentou ao Brasil.
Misturou o cordel das feiras com suas incursões beatniks, e viagens na asas dos Beatles e panfletismos de Bob Dylan. Foi dele o primeiro disco que comprei, um compacto duplo que tinha no lado A o sucesso “Apenas um Rapaz latino-americano”.
Dolores Duran colou em Vinícius de Moraes e Tom Jobim. Fez coisas lindíssimas, com destaque especial para Noite do Meu Bem. Era boêmia, e traduzia como os melhores de sua raça, a alma dos que sofrem por amor.
No dia 23 de outubro de 1959, com 29 anos, chegou em casa às 7:00 da manhã, e disse para sua empregada: “Não me acorde. Estou cansada. Vou dormir até morrer”. E morreu mesmo. Parada cardíaca.
São muitos os nossos grandes compositores e suas histórias geniais. Se fosse para escrever sobre todos eles, passaria o ano inteiro aqui. Diante desta impossibilidade, separei alguns versos marcantes, que quero dividir com vocês.
“Vem, vamos embora, que esperar não é saber/Quem sabe faz a hora, não espera acontecer ““.
(Geraldo Vandré – Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores)
“Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos/ Ainda somos os mesmos e vivemos Como nossos pais”
(Belchior – Como Nossos Pais)

“Ah, se ao te conhecer / dei pra sonhar, fiz tantos desvarios/ rompi com o mundo, queimei meus navios/ Conta-me agora como hei de partir”
(Chico Buarque – Eu te amo)

“Ando devagar porque já tive pressa/ e levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história / e cada ser em si carrega o dom de ser capaz, e ser feliz”
(Almir Ster e Renato teixeira – Tocando em Frente)

“Mas a lua furando nosso zinco/ Salpicava de estrelas nosso chão. E tu pisavas nos astros distraída”
(Silvio Caldas e Orestes Barbosa – Chão de Estrelas)

Interrompo as escrevinhações para atender um telefonema de Paulinho Pedra Azul, ele próprio um bamba da canção. Falo da crônica, cito os versos escolhidos e peço que refresque minha memória, sugerindo mais algum verso importante. Ao que ele respondeu:
– E precisa mais?

Com a palavra, o leitor do BV.

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