Noites No Sereno

Nunca fui bom de cama, confesso. A dificuldade de cair no sono me acompanha desde menino e as olheiras pronunciadas já renderam apelidos pitorescos.

Zorro e Guaxo não colaram, porque nunca liguei. Tentaram coisas piores, mas nada deu muito certo.

Se não perdi o sono por causa de um apelido, deixei de dormir por coisa menos complicada. Namorada, por exemplo.

Bastava arranjar uma paixãozinha – platônica que fosse – e a moça me consumia quase toda a massa cinzenta.

A proximidade de alguma partida importante do Cruzeiro também fazia seu estrago. Véspera de clássico, então, nem se fala.

Isto, porque naquele tempo não tinha nenhuma obrigação financeira. Vivia caçando chifre em cabeça de cavalo.

Não pagava aluguel, telefone, gás ou luz. Não tinha um passarinho pra dar água. Tinha que inventar com o que ocupar meus neurônios.

Na juventude compensava essa inabilidade de relaxar caindo na gandaia. Tinha saúde e vigor para isto e muito mais. Exagerado, apaixonado pela vida, levava tudo na base do oito ou oitenta.

Certa ocasião, fiquei quase uma semana sem dormir. Emendava a noite no dia, fazendo do álcool e de outras bobagens, o combustível com que me conduzia pela via-sacra dos botequins e festas.

Eu ficava dias sem voltar pra casa, viajava de carona, meio hippie, sem bagagem, lenço ou documento. Voltava mais na frente com marcas de batom na roupa, e alguns novos poemas na algibeira. Era meio inconseqüente e malandrão. Quando surtava, pagava micos incríveis.

Numa dessas andanças embaladas a cachaça pelo interior da Bahia, fui parar num palanque em Vitória da Conquista, participando de um festival de arte popular. Era um tempo muito difícil para o povo, período em que as pessoas faziam filas enormes para comprar feijão, gênero que havia sumido da mesa dos brasileiros. Uma vez encontrado, o saboroso grão era vendido a preço de ouro. Quem é mais entrado na vida, certamente se lembrará do que acabo de relatar.

Pouco depois da crise do petróleo, tivemos no Brasil a crise do feijão.

E foi naqueles dias cinzentos que, depois de beber umas e outras, alinhavei um poema que julguei ser de genuína lavra cordelista.

Escrevi o primeiro e derradeiro cordel no verso de um cartaz de cigarros da marca Hollywood, oferta do dono do bar em que havia ancorado. O poema, uma das piores coisas que alguém poderia produzir nessa vida, não era dos mais longos, e terminava mais ou menos assim:

“Do jeito que as coisas andam”.

Vou acabar em pele e osso

Esse meu salário mínimo

Não dá nem para um caroço “

Não levei vaia, é verdade. Mas os aplausos foram poucos.

Na seqüência, subiu ao palco um certo Oliveira de Panelas, que vim a descobrir se tratar de um dos maiores repentistas do Brasil.

A platéia foi ao delírio com a chegada dele. E eu ao bar.

Fiquei nesse frenesi que não cessava. Nem cochilar conseguia. Só fui para casa de meus anfitriões ao fim do quinto dia. Quando consegui dormir, apaguei.

Os donos da casa ficaram preocupados, quiseram me levar ao hospital, mas toda vez que tentavam me acordar eu implorava: “deixem-me dormir só mais dez minutinhos”.

Aquele “coma induzido” durou dois dias.

Foram as melhores noites de sono de toda a minha vida. Mas não sei se conseguiria reeditá-las hoje.

Ando com vontade e necessidade de sair por aí, sem destino, mas sei que o fígado e a consciência não resistiriam à primeira noite no sereno.

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