Um Encontro Marcante

A poesia foi minha primeira forma de expressão escrita. Eu era adolescente em Governador Valadares e começava a me encantar com a palavra, interessando-me inicialmente pelas letras de canção impressas nos encartes dos discos.

Eu ficava horas a fio esmiuçando as letras de Chico Buarque, Capinam, Caetano Veloso, Fausto Nilo, Abel Silva e Belchior, meus favoritos naquele momento muito fértil da MPB. Lia, releia e me comovia. Mas não me arriscava a rabiscar nada. Até que houve um dia que tudo mudou.

Eu tinha 18 anos de idade e servia o exército em Juiz de Fora. Era setembro e meu pai havia se deslocado àquela cidade para me ver desfilando com o verde-oliva do 10º Batalhão de Infantaria. Ele, que era militar e queria que eu seguisse seus passos estava muito feliz.

Eu, nem tanto. Mas gostava de vê-lo naquele estado de encantamento.

Desfilei – marchei! – como milhares de outros rapazes e, por volta do meio dia, já estava no hotel onde meu pai se hospedara. E imaginava que ele fosse me levar para almoçar em um bom restaurante, louco que estava para fugir dos bandeijões nada apetitosos servidos na caserna. Mas ele tinha outros planos.

Fui informado que almoçaríamos num presídio, o que não me animou nem um pouquinho.

Explico: meu pai queria visitar um amigo que se encontrava encarcerado no presídio de Santa Teresinha.

Um amigo dos tempos em que ele ingressara na polícia militar de e que cumpria pena por ter se transformado num dos mais temidos pistoleiros de aluguel de todo o interior mineiro.

Chegando lá, fomos recebidos com alegria. Eu já o conhecia. Meu pai foi uma das poucas pessoas que não lhe viraram as costas, quando foi descoberta a sua atividade paralela.

Tratava-se de um homem miúdo, tinha os cabelos longos e um pronunciado cavanhaque. Seu olhar era penetrante e firme. Estava bastante diferente de quando o havia visto pela última vez, uns cinco anos antes.

No derradeiro encontro ele havia me presenteado com um livro retratando a participação brasileira na batalha de Monte Castelo, na Segunda Guerra Mundial. E, a primeira coisa que ele me perguntou, logo na chegada, foi sobre o livro.

Confirmei que havia lido o livro e ele testou se eu falava a verdade. Felizmente, eu havia lido realmente o livro e, durante uns bons quinze minutos, ficamos falando sobre a obra.

O dia transcorreu com a estranheza esperada por quem passava seu primeiro dia dentro de um presídio, ainda que como visitante.

Almoçamos arroz, feijão, carne de panela, salada de tomate e bebemos suco de laranja. A sobremesa foi uma gelatina vermelha, muito rala, que imaginei ser de framboesa. A comida era muito parecida com a que me serviam no quartel.

Na hora da despedida, o amigo de meu pai me perguntou, do nada, se eu gostava de poesia. E eu disse que sim. Ele perguntou quem era meu autor favorito e eu respondi: Chico Buarque.

Aí ele me disse que também gostava de Chico Buarque, mas argumentou que eu precisava me interessar por autores outros que não os da palavra cantada. E indagou sobre Augusto dos Anjos.

Eu não sabia quem era Augusto dos Anjos. E ele deu uma catédra sobre o poeta simbolista, nascido na Paraíba e falecido em Leopoldina, MG, e que havia publicado apenas um livro, grandioso o suficiente ao ponto de colocá-lo entre os maiores nomes da poesia brasileira em todos os tempos.

Ao final da grandiosa pequena aula, recitou Versos Íntimos, obra-prima de Augusto dos Anjos.

E recitou com fúria tamanha, que quando terminou de dizer o último verso, eu estava completamente arrepiado, encolhido em um canto da cela, comovido até o último fio de cabelo e à beira das lágrimas.

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!”

Saí daquele lugar como se tivesse sido atropelado por um trem. Chegando ao quartel, passei a noite em claro, escrevendo poemas, cometendo versos cada um pior que o outro. Mas parira ali, alavancado por aquele insólito encontro, minhas primeiras palavras.

Havia me tornado poeta e minha vida havia sido transformada para todo o sempre.

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