Da sétima arte

camera acao Da sétima arteEu me iniciei nos mistérios da Sétima Arte no Cine Poeira lá em São Raimundo. Como tantos meninos de minha geração beijei Greta, Marlene, Marylin, Sophia e Raquel Welch, deusas que também amei com as mãos.

Nos momentos pós sessão eu saía apaixonado pelas protagonistas e tão encarnado em seus pares românticos que, dependendo do filme, eu me achava complexo e profundo como Marlon Brando, sofisticada como Roger Moore, bravo como John Wayne, duro como Clint Eastwood ou belo como James Dean.

Mal saía do cinema e já era um rebelde sem causa, um poderoso chefão a um passo da eternidade, um herói de capa e espada, Lawrence da Arábia que ia para casa à pé.

Mais entrado na vida flertaria com a novidade baiana Glauber Rocha e as coisas que me encantavam vindas da Europa.

Era fã de Fellini, de Antonioni, Rossellini, Fassbinder e François Truffaut.

Depois descobriria Wim Wenders, Copolla, David Lynch e Allan Parker, que fez Coração Satânico e O Selvagem da Motocicleta, meus dois filmes favoritos.

No Brasil de meus primeiros tempos o cinema nacional se resumia a chanchadas e uma ou outra pérola esparsa.

Até os livros densos de Nelson Rodrigues viravam chanchada naquele Brasil.

Tivemos estórias magníficas que se perderam nas nossas precariedades tecnológicas e na mordaça da censura de um país que não ia pra frente, como tentavam nos fazer crer aqueles senhores que nos enfiavam suas botas militares garganta abaixo.

Felizmente os tempos mudaram – nos mudando junto – e o país vem produzindo um cinema cada vez melhor.

De Central do Brasil para cá, entramos numa dimensão internacional, criando peças relevantes, bem feitas, e que podem fazer frente a trabalhos desenvolvidos em qualquer outra parte do mundo.

Este é o Brasil de A Grande Arte e de Cidade de Deus.

Estamos revelando diretores, atores e atrizes, roteiristas e temos excelentes motes à mão. Não falta o que retratar ao cinema nacional.

E é pensando nisto que resolvi dar uma “mãozinha” aos realizadores da Sétima Arte no Brasil.

Se vocês quiserem uma película de guerra, abundam estórias de glória e dor dos pracinhas brasileiros da FEB. Poderia ser um filme ambientado na Itália e no Brasil, tendo Thiago Lacerda atormentado pelas ordens superiores de invadir o vilarejo de onde teriam vindo os seus pais, agora imigrantes italianos na Mooca, em São Paulo.

O personagem de Thiago ainda teria parentes vivendo na região de Monte Castelo e se apaixonaria por uma camponesa italiana.

Pronto! Está criado um romance em tempo de guerra, com todas a sua beleza e drama, culminando deserção e fuga no porão de um navio da marinha mercante argentina.

Já imaginaram?

Se os cinéfilos quiserem um épico, eu lhes dou um épico.

Eu lhes dou Canudos com Jackson Antunes no papel de Antônio Conselheiro.

Dou-lhes a agonia de Portinari morrendo consumido por suas tintas.

Dou-lhes as formas de Tarsila e as cores de Caribé.

Dou-lhes as curvas de Niemeyer e os jardins futuristas de Burle Marx.

Dou-lhes o urbano Adoniran e os sertanejos Zé Côco do Riachão e Patativa do Assaré.

Dou-lhes crimes passionais de famosos como os de Lindomar Castilho e Guilherme de Pádua.

Dou-lhes roteiros de ação como o do roubo do Banco Central de Fortaleza, ou catástrofes do colarinho branco como o absurdo do mensalão e a história de PC Farias numa piscina de sangue.

Dou-lhes os últimos dias de Getúlio e o impeachment de Collor de Mello.Dou-lhes Dilma.

Dou-lhes Ângela e Leila Diniz, mulheres de lâmina e rosa.

Dou-lhes Elis.

Dou-lhes a boemia de Vinícius e todas as suas musas.

Dou-lhes Heitor Villa Lobos e Geraldo Vandré.

Dou-lhes a alegria de Chacrinha e a inocência de Grande Otelo.

Dou-lhes as tristezas de Garrincha e suas pernas tortas.

E a melancolia de Dolores Duran.

Eu dou-lhes a vida de Cartola, já com título, posto que “A Vida é Um Moinho” .

E dou-lhes Roberto Carlos e Antonio Carlos Jobim.|

Dou-lhes, ainda, a inquietação colorida da Tropicália, o movimento modernista de 22, a Inconfidência Mineira e o Clube da Esquina.

Dou-lhes histórias de amor como as de Lampião e Maria Bonita, Jorge Amado e Zélia Gattai, Tomás Antônio Gonzaga e Marília de Dirceu.

Dou-lhes roteiros subversivos e de final infeliz como os de Carlos Lamarca e Vladimir Herzog.

Dou-lhes a história e as estórias do Pasquim, com as pérolas de Jaguar, Millôr, Ziraldo, Henfil e Redi.

Leminski daria um grande filme. Clarice daria outro.

O Encontro Marcado, de Sabino, poderia ser readaptado para um tempo mais recente.|

Grande Sertão Veredas traria Lima Rolando Boldrin em papel relevante.

Santos Dumont decolaria num 14 Bis e o voo 3054 da TAM seria o nosso Titanic.

Ayrton Senna sucumbiria numa curva, levando um país inteiro a bordo de seu cockpit.

Pelé sonharia, menino em Três Corações, com mais de mil gols.

E os nossos cineastas, com mais de mil ideias na cabeça e uma câmera na mão, sairiam por aí pedindo silêncio e luzes.

Câmera, ação!

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