Seresteiros do futuro

Aqui estão os Trovadores Urbanos em Amor até o fim (Dabliú Discos), seu sétimo CD (também em DVD). O quarteto vocal misto (duas vozes femininas e duas vozes masculinas), integrado por Maída Novaes, Valéria Caram, Juca Novaes e Eduardo Santhana, traz a público sua experiência – uma sacada extremamente bem-sucedida: interpretar canções com a delicadeza e o lirismo dos cantadores de tempos tão passados quanto extremamente saudosos para muita, muita gente… Mas com saudável modernidade.

Os Trovadores estão na estrada há vinte anos. Sua categoria vocal está marcada pelo cuidado com que selecionam o que cantam. Cada trabalho reflete o que desde sempre os levou a se reunir: uma ideia. A partir desse projeto, desse norte, vem a competência para buscar músicas que reflitam o ambiente musical de alguma década ou de alguma fase política ou de costumes, e, de acordo com o (bom) gosto de seus vocalistas, repercuti-las.

Embora vestidos, nos shows e serestas que fazem, com roupas à la Belle Époque, os Trovadores Urbanos são recordadores de uma contemporaneidade que seria bom ter sempre presente. A delicadeza com que interpretam múltiplos arranjos e gêneros musicais (serestas, modinhas, valsas, sambas rasgados, bossa nova e marchas), bem como composições de Ari Barroso, Tom Jobim e Pixinguinha, demonstra que a pluralidade e a afabilidade são a tônica do seu repertório. Sendo boa a música, o jeito de cantar é sempre envolto num jeito suave de despertar sonhos esquecidos no imaginário do ouvinte.

A ideia: em Amor até o fim predominam músicas da década de 1970. Entre sambas e canções, lá estão Ivan Lins e Vitor Martins (“Vieste”), Benito de Paula (“Retalhos de Cetim”), Djavan (“Fato Consumado”), Antonio Carlos e Jocafi (“Você Abusou”), Durval Ferreira (“I Love You”), Gilberto Gil (“Amor Até o Fim”), Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito (“Folhas Secas”), Chico Buarque e Sivuca (“João e Maria”), Taiguara (“Que as Crianças Cantem Livres”), Paulinho Nogueira (“Menina”), Antonio Adolfo e Tibério Gaspar (“Teletema”), Guarabyra e Flávio Venturini (“Espanhola”), Guilherme Arantes (“Meu Mundo e Nada Mais”), Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges (“Clube da Esquina Número 2”) e Gilberto Gil (“Amor Até o Fim”).

Plenos de contrapontos muito bem elaborados; de vocais criados sobre modernas harmonias (o arranjo a capella de “Começaria Tudo Outra Vez” (Gonzaguinha) é de sonoridade ímpar); de uníssonos precisos; de solos divididos entre as quatro boas vozes; de instrumentação com percussão (Adriano Busko), flauta e bandolim (Pratinha), cello (Lucas Ebert), violões (Ítalo Perón), contrabaixo (Renato Loyola), piano, teclados e programação (Pichi Borrelli, diretor musical do álbum e autor de quinze arranjos). E Magro Waghabi (MPB4) criou arranjo para “Primavera” (Cassiano e Silvio Rochael).

Tudo carregado de sutilezas, das quais se valem os Trovadores Urbanos para se amparar na tradição e dar seu recado moderno.

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