Na música de Thiago Amud, o assombro tem lugar garantido

E então, o que faço agora com esses versos que me invadiram? Onde colocarei a palavra que hoje me deixa atônito? Para qual campina irei? Em que oceano mergulharei? Sob qual treva vergarei? Para qual porto seguro irei?

Gente, que canção é essa que me jogou no chão? Quem é ela que tanto me aflige sem que eu ao menos saiba como me pegou?

Que harmonia é essa que me causa tamanha estranheza? Que melodia é essa que se parece com o que nunca vi? Que instrumentos são esses que não sei mais, nem menos, como soam ou como timbram?

Caramba! Que música é essa que tem tamanha capacidade de me revirar pelo avesso? De onde vem esse delírio? Para onde vai tanta balbúrdia? Que sentido terá tudo isso que me agita, trazendo à flor da pele o arrepio do desconhecido?

Tira-me do sério a falsa bifurcação sugerida entre o som dos versos e o toque dos instrumentos. Ouço a voz. Vem-me à alma o arpejo.

(Sou tão sério, sou tão áspero, tão inatingível, afeito às cruezas da noite e às miragens do dia. Mas se sou assim num instante, posso não ser mais assim no segundo seguinte. Estou aqui para refletir, para repassar, para vitoriar. Para mim, a música tem lugar certo de ser: no fundo e no raso do jeito de ouvi-la.)

Após tanto palavreado, chego enfim a Sacradança (Delira Música), o CD de estreia de Thiago Amud. Menestrel encapetado, cantador enfeitiçado, o cara traz à luz um jeito de fazer música que o torna capaz de resumir sentimentos em prosa e em versos, sem, contudo, torná-los opacos.

Surpreendente é a sua música. Admirável é o seu desprendimento. Grande é a sua coragem para desdenhar do previamente aceito. Ao compor, ele se perde entre suas próprias angústias; ao escrever, seus versos saem-lhe lancinantes, farpas afiadas a descosturar crendices; ao harmonizar, pensa muito mais em confundir certezas; ao criar os arranjos, age como o jardineiro que arranca do caule os brotos e assim o fortalece; ao cantar, armado apenas com o violão, sua voz é seu cavalo a vagando por estradas inseguras.

Para ouvir a música de Amud, há que se ter disponibilidade para inovações. Não há monotonia; tudo nela é feito para atiçar, para mexer, para fazer delirar, para buscar o reverso, para atiçar o futuro, para andar em círculos, para se achar em becos e em atalhos.

Sacradança tem dez faixas que são como curtas-metragens, ou como cenas de um musical dramático e patético. Plena de subtexto, a música de Thiago sacode o ar e dissemina utopias. Rica em melodia e harmonia, sua música seduz. E assim provavelmente foi com Guinga, que se dispôs a cantar com Thiago “Irreconhecível”, música dedicada pelo autor à própria mãe, e que é um soco na boca da falsa candura do senso comum, o qual só se refere ao tema como amor incondicional.

Assim é tudo o que Thiago Amud cria: a cada sobressalto, o avanço; a cada alvoroço, o sorriso; a cada passo, surpresa; a cada dor, unguentos; a cada lágrima, amor; a cada amor, dor.

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