A volta dos barbudos

roberto Instagram A volta dos barbudosVoltaram as barbas e eu não poderei andar na moda. Nasci com pouco pelo. Cresci com pouco pelo. E para piorar o quadro, agora estou ficando careca, coisa de vencimento da data de validade. Cabelo não nasce em garrafa.
As barbas voltaram e agora proliferaram pelos ambientes descolados. Apenas raramente, elas habitam as barbearias.
Moram em salões de beleza com lounge, música ambiente e profissionais que se vestem como estivessem chegando a uma discoteca. Servem chá e cafezinho com biscoitos aos clientes. Cobram o olho da cara.
Com o retorno das barbas, a profissão de barbeiro voltou a ser apreciada e seus profissionais  são cultuados como os chefes de cozinha e os dj’s, outros artistas em voga.
Se são novidade no Ocidente, os barbudos jamais saíram da moda em outros  lugares do mundo. Índia, Paquistão e países árabes que o digam.
Quando criança reverenciei três barbudos.
Primeiro, Deus, que vem acima de todas as coisas, como me ensinou o padre João, um holandês com cara de mau, que jogava baralho e bebia cerveja no bar Chave de Ouro. Aos domingos ele dava missa e repartia hóstias.
Pelos olhos do padre João envisionei um velhinho na casa dos sessenta e tantos anos, com uma barba à Walt Wittmam, severo, austero, sisudo, mas de bom coração. Poucos teriam visto os dentes de Deus, que na minha teoria é homem de poucos sorrisos.
Já o seu filho Jesus, moço guapíssimo e de olhos azuis, um solteirão bem ao estilo de Claudio Nucci da década de 1980, tem a barba mais comportada, ligeiramente fora de lugar. Fosse um mortal descomprometido com as causas divinas e vivesse no mundo de hoje, faria tremendo sucesso com as moças, tão bonito que é.
O terceiro barbudo era o velho Nicolau, habitante da Lapônia, que na noite de 24 de dezembro tinha o hábito de descer pelas chaminés das casas trazendo presentes para a criançada, mas que nunca trouxe a minha Caloi.
Talvez por ausência de chaminé na nossa casa,  aquela Caloi tão desejada, tão esperada, jamais chegou a São Raimundo.
Menino que não ganha Caloi se torna um homem conformado, mas que guarda um vazio. Estou neste grupo.
Somos vítimas da síndrome da bicicleta que nunca veio e muitos de nós frequentamos  os divãs dos psicanalistas em busca de refrigério. Outros, falam baixinho pelos cantos, sempre que a bicicleta transmutada noutras coisas vai parar na casa do vizinho. Somos silenciosos.
A verdade é que todos  envelhecemos, menos Papai Noel, que continua cheio de vitalidade. O que me faz pensar nesta coisa de envelhecer.
Quando eu era menino os homens ficavam velhos muito cedo. E isto mudou para muitos de nós.
Com quarenta anos de idade, meu pai já era  um rei Salomão sem barba e bigode.
Com os avanços da ciência o conceito mudou.
Tratamentos a laser remendaram as calvícies, os bisturis deceparam as barrigas e os dermatologistas transformam o mapa da pele em superfícies sedosas e joviais. Sem falar no surgimento dos nutricionistas e das academias de ginástica.
Seja pela busca da beleza ou da longevidade, o cinquentão é o novo trintão; o sessentão é o novo quarentão.
E tem muito setentão batendo um bolão, graças ao laboratório Pfizer, detentor da patente do Viagra.

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