A magia da música instrumental brasileira

Capa CD Ana de Oliveira e Seergio Ferraz A magia da música instrumental brasileiraA intro de “Floresta do Navio” (Sérgio Ferraz), primeira faixa do álbum Carta de Amor e Outras Histórias (independente), nos carrega ao sabor de sons nordestinos… tal magia se dá com dois instrumentos.

O que ali se ouve nos induz a crer que estamos ouvindo um duo de viola com rabeca. Na verdade, porém, os protagonistas Ana de Oliveira e Sérgio Ferraz (compositor) tocam, respectivamente, violino e violão de oito cordas. O simples fato de violino e violão serem primo-irmãos da rabeca e da viola conferem aos arranjos uma sonoridade que os instrumentos característicos da música nordestina têm.

O início do CD é surpreendente (eu não conhecia nem Ana nem Sérgio e esse é o primeiro disco do duo). Foi aí que o encanto me pegou pela mão e me pôs num mês qualquer do ano de 1967, quando eu ouvi pela primeira vez o icônico LP do Quarteto Novo, cujos integrantes são expoentes da música instrumental brasileira: Airto Moreira, Hermeto Pascoal, Théo de Barros e Heraldo do Monte.

Abstraindo o tempo que separa o Quarteto Novo do duo de Ana e Sérgio, cuja bagagem instrumental o aproxima do Quarteto, ouvir “Floresta do Navio” e relembrar, por exemplo, de “O Ovo” (Geraldo Vandré e Hermeto Pascoal) e de “Algodão” (Gonzagão e Zé Dantas), gravadas pelo Quarteto Novo, é uma bem-vinda recordação.

E foi com essa lembrança tamborilando em minha caixola que segui escutando Carta de Amor e Outras Histórias. A cada faixa eu me punha a rememorar e a me arrepiar com tudo aquilo que tocava forte em minha emoção.

Antes de me dar conta de que nos arranjos não havia zabumba nem sanfona, ouvi dois dos quatro movimentos da Suíte Armorial (obra de fôlego dedicada por Ferraz ao escritor Ariano Suassuna): lá estava o pulso firme do grande percussionista Marcos Suzano.

As composições de Ferraz trazem em si um vasto exemplo dos tantos gêneros da música brasileira contemporânea. Ele e Ana cuidam de serem difusores da heterogeneidade da nossa cultura musical. O que fazem com mestria.

A sensibilidade dos dois se mostra ainda mais aguçada ao fazer do álbum uma homenagem a Egberto Gismonti. Graças à fineza das músicas de Sérgio Ferraz, de seus arranjos e de seus violões de oito e de doze cordas, sente-se que paira no ar um quê grandioso da polifonia dos múltiplos instrumentos tocados por Gismonti, representada no álbum por “Frevo”, “Carta de Amor” e “Loro”. Meu Deus!

Ao longo do CD, violão e violino têm diálogos alucinados e alucinantes, repentes recriam o mundo mágico dos cantadores de feira, enquanto violão e violino fazem do violino, rabeca e do violão, viola: o que se ouve é maracatu, é samba, é baião… e, muito mais do que isso, é todo o tantão que a nossa música oferece aos músicos e aos compositores brasileiros para que retribuam tocando, como se eles nos garantissem: “Aqui está o pouco do muito que sabemos; pois o tudo vem das origens da brasilidade – e é essa herança ancestral que lhes entregamos de corpo e alma”.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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