A fundura da queda

roberto A fundura da quedaNão tem ninguém em casa. A família foi passar o carnaval no Brasil e você fica em New Jersey. Fica por compromissos de trabalho, mas fica também por opção. Com um pouquinho de esforço teria ido junto.

Fica só nesta casa grande, na companhia de duas cadelas e três passarinhos, que você tem obrigação de alimentar e cuidar todos os dias, apesar de não gostar de animais dentro da residência.

Trocar o frio do inverno americano por uns dias de calor no litoral de Santa Catarina não esteve nas cartas, nos búzios ou na palma de sua mão. Você ficou de fora. Tudo bem. Conforme-se.

Você se levanta tarde, depois de ter bebido um Rio Hudson de cerveja na véspera, está meio ressaqueado, o corpo pede um banho quente.

Você fica nu, liga o chuveiro ainda meio dormindo e nada acontece. As baixas temperaturas deste inverno congelaram o encanamento e a água não chega ao segundo andar. Congelou tudo. Nada feito. O jeito é voltar para a cama.

Foi o que fiz.

Mas mesmo a cama quentinha fica um ninho de espinhos após um certo tempo.

Apesar do frio e da neve lá fora existe uma vida para viver.

É sábado, eu sei, e hoje não trabalho.

Lembro-me de um bacalhau que comprei para estrear o novíssimo forno elétrico.  Nem tudo está perdido.

Na geladeira ainda tem umas cervejas tchecas, maravilhosas, que sobraram da visita de Fábio Portugal.

Não, nada está perdido.

Conformo-me com a ausência do banho, mesmo sendo uma daquelas pessoas que não se são sem um banho bem demorado pela manhã.

Levanto a persiana, bisbilhoto a rua e vejo que volta a nevar forte.

A neve promove um silêncio ensurdecedor quando cai.  Trata-se de um fenômeno belíssimo em um cartão postal ou numa cena de filme.  Na vida real é gás paralisante.

Tudo fica inerte.

Constrói um momento de rara beleza, mas também de aniquilamento e sofrer.

Resolvi cuidar da vida.

Desci de cueca mesmo, a boa e velha samba canção, uma camiseta de mangas-compridas com uma estampa de Adoniran Barbosa e uma pantufa, presente de natal de minha filha do meio.

Desço ao porão da casa e percebo que Layla, a cachorrinha mais nova, havia transformado o ambiente em banheiro. Fiquei aborrecido, peguei um balde com água, detergente, e joguei por todo o chão.

Eu que já havia colocado o bacalhau no forno elétrico ligado, lá em cima, temi que ele queimasse enquanto higienizava o porão. Resolvi parar a limpeza e ir diminuir a temperatura do forno para executar a tarefa.

No que girei o corpo no sentido da escada, a perna direita foi em direção ao destino com o escorregão, mas o resto do corpo não.

Pensem numa bailarina com as pernas em compasso aberto. Uma bailarina bem acima do peso.

Senti que o joelho iria se partir em dois, arremessei o corpo – reflexo de enferrujado goleiro de futebol de salão – e encontrei uma pilastra.

Bati com o quadril em sua quina pontiaguda e vi estrelas. Constelações. A boca amargou.

Eu ainda me contorcia de dor no chão, o corpo embebido naquela mistura de detergente, água e urina de animal, quando vi tudo escurecer.

A luz acabou naquele exato momento.

Em 31 anos vivendo aqui, com exceção à catástrofe do furacão Sandy, a eletricidade jamais falhou na Hazelwood Avenue.

Mas ali ela me abandonara e eu me contorcia de dor, sozinho, em plena nevasca. Pensei em pedir socorro, mas o telefone celular se encontrava do lado de minha cama no segundo andar e eu não tinha como me comunicar.

Fiquei mais de seis horas no escuro, sozinho, acometido por fortes dores, sentindo uma fragilidade que desconhecia até então.

Acabei encontrando forças e me arrastei até o quarto, numa maratona que jamais esquecerei.

A luz voltaria. A água quente, também.

Tomei um percocet, dois dorflex e me entreguei.

Foi sinistro, admito. Tive medo.

Aprendi a entender um tanto bom de coisas da nossa condição humana. E a acreditar em milagres.

O forno em que eu assava o bacalhau era elétrico e estava ligado a 350 graus Fahrenheit, quando a luz apagou.

 

A casa certamente arderia comigo dentro.

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