A  casa da luz vermelha

pinguinha A  casa da luz vermelhaNa minha adolescência as namoradas não transavam. Era comum casarem virgens. Hoje é natural os pais levarem as filhas ao ginecologista e patrocinarem os anticoncepcionais tão logo ficam ‘mocinhas’.

Naqueles 1970, a testosterona explodindo, toda uma geração se iniciou nos mistérios do sexo nos prostíbulos, chamados de Zona (boêmia), geralmente casas miseráveis na periferia, onde uma luz vermelha sobre a porta de entrada indicava que o pecado morava ali.

Lá dentro, o negócio era controlado por uma cafetina sempre muito oxigenada e de boca pintada de vermelho. O modesto bar disponibilizava conhaques vagabundos, cervejas geladas e cachaças muito ruins.

Da cozinha vinha um cardápio limitado em que o picadinho com mandioca frita e a linguiça acebolada não podiam faltar.

As moças ficavam sentadas em um sofá encardido, testemunha de tantas estórias de fracasso e glória. O cliente chegava, escolhia a companhia e dali saía para um dos quartos de assepsia duvidosa. Era dentro daquelas quatro paredes que a mágica acontecia.

Em muitas das casas da vizinhança – e onde o pecado não residia – era comum ver placas escritas à mão: “casa de família”. Quem batesse naquela porta à procura de diversão poderia levar um tiro. A regra era clara.

Fracassei na zona, como fracassaria em muitas outras coisas desta vida. Mas ficaram duas estórias para contar.

Em minha primeira investida, eu estava no ônibus à caminho de um show de Belchior, quando sentou-se ao meu lado um vizinho. Pedrinho convenceu-me a trocar as canções daquele que seria meu primeiro espetáculo pelos carinhos de uma moça chamada Branca, que causava frisson num bordel do bairro Santa Rita. Nem precisou insistir. Belchior ficou para depois.

Cheguei e Branca estava dando expediente. Tive que esperar. Quando ela saiu do quarto – logo atrás do cliente de semblante satisfeito -, a minha cabeça era um sarapatel.

Insegurança, apreensão, medo de contrair uma doença venérea ou de entrar ali algum conhecido de meus pais, misturavam-se ao desconhecido da primeira vez.

Entrei, despi-me timidamente e vi quando ela fez o mesmo. Deitou-se e chamou-me, fazendo um sinal de vem, com o dedo indicador apontado para o meu peito.

Não devo ter durado mais do que alguns segundos, afoito, o quarto girando, os olhos virados em transe. Insisti em continuar nos movimentos, Branca não quis saber de conversa. Tempo é dinheiro e Pedrinho aguardava a sua vez do lado de fora.

Mandou-me ‘apear’ e me vestir.
Menos de cinco minutos após ter entrado, eu saí, carregando um trauma.

Três anos depois, antes de me mudar para Juiz de Fora, fui visitar um amigo em Vitória da Conquista, na Bahia. Ele estava deprimido, não via dinheiro desde que foi trabalhar com o pai em uma fazenda de café. A seca fora inclemente, a colheita atrasara e o dinheiro só viria dali a três meses. Mas eu tinha uma bolada no bolso. Havia recebido o Fundo de Garantia de meu primeiro emprego e concordei de patrocinar uma ida à zona boêmia de Conquista para agradá-lo.

A decepção, logo à entrada, foi muito grande. Eram três moças pouco  vistosas, uma cafetina gordíssima e um travesti, que era também cozinheiro e DJ.

Sentamo-nos e todos vieram à mesa. Meu amigo pediu uma porção de carne de sol e uma cerveja, mas eu não estava confortável. A lembrança de primeira ida ao bordel ainda reverberava.
Chamei o amigo a um canto e abri o jogo. Ele fizesse o que quisesse, mas eu não iria encarar aquela parada indigesta. Ele coçou a cabeça e disse que também não encararia, e riu quando fiz uma proposta indecente:

“Contrataremos todas, e hoje ninguém transa nesta casa”.

Fiz a proposta à dona do estabelecimento, que conversou com suas moças, e elas concordaram em tirar o dia livre, sem ficar com ninguém em troca de um cachê menor’.

Ficamos lá até as seis da manhã, rindo miúdo à cada vez que entrava um freguês e a cafetina ia à porta avisá-lo de que aqueles dois rapazes da mesa ao fundo haviam alugado a casa de “porteira fechada”.

Naquela casa, naquela noite, não houve sexo. Só músicas de Amado Batista e Reginaldo Rossi, carne de sol com mandioca, cerveja gelada e muitas estórias alegres e tristes.

Naquela noite eu me redimi do primeiro episódio e tive a certeza de que encerrara ali a minha presença nas casas da luz vermelha.

 

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