Ultrapassa 17 mil onda de brasileiros que chegou à fronteira EUA-México

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Os brasileiros que cruzam o setor de El Paso, que cobre o sul do Novo México e o oeste do Texas, foram responsáveis por 95% das apreensões em todos os EUA

Em todos os EUA, aproximadamente 18 mil brasileiros foram presos no ano fiscal que terminou em outubro de 2019

A política do governo Trump praticamente acabou com o asilo para os migrantes oriundos da América Central, mas deixou “brechas” que favorecem os migrantes de países de língua não espanhola. Nascido e criado na fronteira EUA-México, o funcionário de hotel Joe Luís Rubio nunca pensou que fosse tentar se comunicar em português diariamente. Entretanto, com centenas de brasileiros que cruzam a Ciudad Juarez, México, a cada semana, o Motel 6 no aeroporto se tornou um trampolim para milhares de falantes de português em uma viagem de 9.500 km do Brasil para El Paso (TX).

“Graças a Deus pelo Google Tradutor ou estaríamos perdidos”, diz Rubio.

A migração silenciosa de aproximadamente 17 mil brasileiros através de uma única cidade dos EUA, em 2018, revela um novo obstáculo para o governo Trump de interromper a via legal para pessoas que alegam medo de perseguição em seus países de origem. Como centenas de milhares de famílias de Honduras, El Salvador e Guatemala, conhecidas coletivamente como “Triângulo do Norte”, os brasileiros estão atravessando a fronteira e solicitando asilo.

Em todos os EUA, aproximadamente 18 mil brasileiros foram presos no ano fiscal que terminou em outubro, ou seja, um aumento de 600% em relação à alta anterior em 2016. Os brasileiros que cruzam o setor de El Paso, que cobre o sul do Novo México e o oeste do Texas, foram responsáveis por 95% das apreensões em todo o país, de acordo com o Departamento de Alfândega & Proteção das Fronteiras (CBP).

. Rigorosidade da lei:

Na segunda-feira (9), o chefe interino do CBP, Mark Morgan, prometeu tentar impedir o asilo para imigrantes que não pertencem à América Latina de língua espanhola.

“Nós estamos vendo, novamente, indivíduos de países extraterritoriais, extracontinentais, vindos do Brasil, Haiti, africanos”, disse Morgan.

Ele prometeu implantar regras para barrar os migrantes desses países “com o mesmo nível de compromisso que criamos iniciativas para resolver o problema com as famílias do Triângulo do Norte”.

Essas iniciativas incluíam fazer com que as famílias esperassem meses em cidades fronteiriças mexicanas perigosas para solicitar asilo, devolvendo-as ao México para aguardar audiências judiciais e uma regra recente que efetivamente rejeita quase todas as reivindicações de asilo, independentemente do mérito. O resultado foi uma mistura de pseudo-deportações para países onde os migrantes nunca viveram e onde enfrentam barreiras para conseguir trabalho ou acesso a serviços sociais básicos.

As famílias brasileiras não são mantidas indefinidamente em detenção, mas liberadas para a Casa da Anunciação, ou seja, uma rede de abrigos, onde podem ficar por alguns dias enquanto organizam voos para outras cidades nos EUA. Eles são frequentemente levados para o aeroporto em uma minivan dirigida por Phil Porter.

“É preciso muito para alguém fazer as malas e deixar seu país, especialmente quando se é apegado à família”, diz Porter, 72 anos, que estima ter transportado cerca de 200 brasileiros. “Estes são refugiados econômicos”.

O Brasil entrou em sua pior recessão em 2015 e 2016 e está caminhando para o 3º ano consecutivo de crescimento de aproximadamente 1%. O persistente fracasso da economia em ganhar força significa que o desemprego permaneceu teimosamente nos dois dígitos, com a leitura mais recente em 11,6%. Somando o subemprego, o número mais que dobra para quase um quarto da força de trabalho, ou seja, 27 milhões de pessoas.

. Onda de brasileiros:

As autoridades de Massachusetts e os líderes comunitários dizem que sentiram o aumento de migrantes brasileiros no ano passado, com mais famílias buscando serviços de imigração e matriculando seus filhos em escolas públicas. O estado tem a segunda maior população de brasileiros nos EUA depois da Flórida, de acordo com dados do Censo dos EUA de 2015.

O recente imigrante Helison Alvarenga diz que começou a trabalhar no dia seguinte a sua chegada a Massachusetts. Ele já está ganhando três vezes mais do que ganhou como mecânico no Brasil. “As coisas estão em péssimas condições no Brasil agora. A única maneira de ter uma vida melhor no Brasil é fazer faculdade, mas a faculdade é muito cara”, disse Alvarenga, falando em português e com a ajuda de um tradutor.

O inverno na região da Nova Inglaterra também foi mais difícil do que ele esperava, admite. “Isso me deixa com saudades de casa. Sinto falta do calor e do sol”, comentou. “Se eu ganhasse o suficiente com uma raspadinha (scratch ticket), voltaria amanhã”.

Muitos brasileiros estão solicitando asilo, citando o alto desemprego do país, a corrupção e a violência persistentes, diz Luciano Park, advogado de imigração em Waltham (MA), que veio do Brasil para cursar Direito em Boston (MA).

Mas os requerentes de asilo brasileiros enfrentam um obstáculo difícil, pois simplesmente tentar escapar da violência crônica relacionada às gangues do Brasil geralmente não é suficiente para reivindicar asilo, disse Park. As mulheres que citam violência doméstica também têm menos chances de ganhar seus casos devido às regras mais rígidas de asilo impostas pelo governo Trump.

“Antes esses casos eram bons”, disse Park. “Mas ficou mais difícil argumentar”.

Os vistos de turista e de estudante têm sido mais difíceis para os brasileiros, pois aumentaram os pedidos durante a mais recente crise econômica, relatou Francis Brink, advogado de imigração em Orlando (FL).

. Fraude familiar:

Muitos migrantes brasileiros adultos solteiros estão em detenção de imigração enquanto os pedidos de asilo são processados. Outros tentaram evitar a detenção fingindo ser pai ou mãe ou filho, geralmente usando IDs obtidos de forma fraudulenta no Brasil. Os agentes do Setor de Investigações de Segurança Nacional (HSI) têm apresentado denúncias da chamada “fraude familiar” por brasileiros pelo menos algumas vezes por mês.

 

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